Contar a história do futebol feminino brasileiro é mais do que lembrar gols, vitórias, derrotas, lances marcantes e seus personagens. É falar sobre resistência, descaso e barreiras quebradas. É lembrar períodos de proibição, preconceito e amadorismo. É impossível contar essa história sem falar da maior de todos os tempos, da única jogadora eleita seis vezes a melhor do mundo: a Rainha Marta.

Muitas atletas antes de Marta suaram a camisa para promover um esporte que até hoje sofre muito preconceito e já foi até proibido por lei. Se o futebol masculino foi, por muito tempo, motivo de polêmica, maior ainda foi com o futebol feminino.
Desafios
“Esporte violento que prejudica a maternidade”
O futebol feminino já é jogado no Brasil há mais de 100 anos. Entretanto, foi legalizado há apenas 26 anos. Antes disso, acredite, o jogo era praticado de maneira escondida.
O preconceito era muito grande e o futebol era visto como um esporte bruto, impróprio para damas. O exagero era tanto que jogadores de uma partida ocorrida na década de 40, em São João da Boa Vista (SP), mereceu excomunhão da Igreja Católica. Já em 1941, aconteceu o primeiro jogo masculino apitado por uma mulher, num amistoso entre o Serrano de Petrópolis contra o América do Rio. Na ocasião, o árbitro passou mal e uma atleta da partida preliminar ao amistoso assumiu o apito.
Entretanto, o futebol de mulheres no Brasil não agradava às famílias conservadoras, o que gerou a criação de um decreto-lei do Estado Novo, na década de 40, proibindo a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”. Essa lei durou até 1979 e, além do futebol (tanto de campo como de salão), impedia que as mulheres praticassem lutas de qualquer natureza, pólo e halterofilismo.
DECRETO-LEI N. 3.199 - DE 14 DE ABRIL DE 1941 |
Imediatamente após a lei ser revogada, surgiram os primeiros times profissionais no Brasil: o Radar, no Rio de Janeiro e Saad, de São Paulo. Na década de 1990, times grandes começaram a aparecer no cenário feminino, como o São Paulo e o Santos.
A seleção de Futebol Feminino
A primeira seleção feminina foi convocada pela CBF no ano de 1988 e foi composta apenas por jogadoras do supracitado time Radar. O clube cedeu 16 atletas e elas conseguiram vencer a competição que foram disputar, a Women’s Cup of Spain, realizada na Espanha. Aliás, esse foi o primeiro título internacional conquistado pela nossa Seleção.
A Copa do Mundo de 1991 foi a primeira que alcançou níveis globais e a seleção brasileira participou. Foi realizada na China e o Brasil ficou com a nona colocação. Quem acabou levantando o caneco foram as norte-americanas.
Em 1996, a modalidade foi incluída nas Olimpíadas, que aconteceu em Atlanta, nos Estados Unidos. A nossa Seleção ficou com a quarta colocação. A primeira medalha em Copas do Mundo veio em 1999, nos Estados Unidos. Ficamos com o terceiro lugar. A geração que garantiu o bronze para a gente era formada por lendárias jogadoras, entre elas a histórica Sissi, uma das artilheiras do torneio, que infelizmente ficou muito mais reconhecida fora do país do que aqui.

O que precisa diminuir não são as traves, mas o preconceito contra o futebol feminino
Apesar das conquistas, o futebol feminino ainda precisa superar muito preconceito para ser praticado.
E isso começa na infância, quando as meninas ganham bonecas ao invés de uma bola, chegando na adolescência e na fase adulta, em que muitas vezes, uma mulher que é vista jogando futebol, já é rotulada com frases preconceituosas como “se joga futebol, só pode ser sapatão” ou “parece um homem quando joga futebol”.
Além desses estereótipos impostos, a capacidade física e técnica das jogadoras é sempre questionada quando muitos homens comentam que para o futebol feminino ser de qualidade e atrativo, é necessário reduzir o tamanho do gol, as dimensões do campo, pois para eles, as mulheres são consideradas mais lentas e fracas que os homens.
Mesmo num cenário promissor, não há como fazer comparações entre o futebol feminino brasileiro e o futebol praticado nos países “de primeiro mundo”. Nações como o Brasil, que ainda estão em processo de desenvolvimento econômico, político e social, conforme mencionado anteriormente na história do futebol feminino, levarão um pouco mais de tempo para se estabilizarem, mas certamente alcançarão as grandes conquistas e reconhecimento no esporte.
E diante de tantas dificuldades, o principal desejo dessas mulheres que sonham em consolidar a carreira profissional, seja como jogadora de futebol ou integrante das equipes de arbitragem, por exemplo, é a igualdade. A principal luta é a busca por visibilidade no mercado e na imprensa, salários justos, e mais oportunidades para elas.
Curiosidades sobre o futebol feminino no Brasil

- Por muito tempo, era consenso que a primeira partida de futebol feminino no Brasil tinha acontecido em 1913. Descobriu-se, no entanto, que entre as jogadoras havia homens disfarçados.
- Na primeira Copa do Mundo, em 1991, a Seleção Brasileira não tinha uniforme próprio. As mulheres foram vestidas com o que restou do time masculino.
- O futebol feminino era tão excêntrico que começou como atração em circos.
- Havia o boato de que o futebol prejudicaria a maternidade e a fertilidade da mulher.
